80 anos de Sonia Guedes celebrados no Alpha – II

Abaixo, transcrevemos a fala de Gabriela Rabelo durante a homenagem a Sonia Guedes, no último dia 10, no Alpharrabio:

Questão: o que falar de Sônia Guedes, esta amiga querida, que faça jus às suas qualidades e que também seja interessante para quem participa da merecida homenagem a esta grande atriz e ser humano?
Pensei: “vou pegar o livro da Adélia, que é cheio de boas idéias” – Sim, porque a Adélia é cheia de ideias sensíveis e que sugerem outras ideias.
Daí, peguei o livro e, na primeira página li: “À Gaby, irmã e amiga testemunha destes longos anos de lutas, Sônia Guedes”
Vi que não precisava olhar o livro da Adélia, que é tão delicioso, para ter ideias. A Sônia está inteirinha na dedicatória que ela me escreveu. E eu vou dividir com vocês esta descoberta.
A começar pela letra cursiva, regular, inclinada – a letra que revela a professora que ela foi e é, distribuída com precisão pela folha do papel. Sônia não é geração computador. Mas a cabeça dela funciona com a mesma capacidade de organização. Primeira linha: À Gaby – com a devida crase, com as maiúsculas que têm uma unidade de estilo, bonitas, trabalhadas, com meu nome escrito com y – eu só escrevo com i. A Sônia, nascida em Paranapiacaba, com influência inglesa, conservou o y no seu vocabulário. Eu nasci em terra de Juscelino Kubistichek, com dois “k”s no nome, mas aceitando que esta letra, mais o y e o w estavam varridas do abecedário.
Ao lado das maiúsculas enfeitadas ficam as outras letras simples, uma seguindo a outra, como deve ser: isto é Sônia – o rebuscamento acompanhado da simplicidade.
Na segunda linha, com um espaço perfeito e igual indo além do A e do y, separadas com a importância que elas têm, as palavras “irmã e amiga” – coisa que somos e que ambas preservamos e estimamos tanto. Estão lá, a “irmã e amiga” numa linha só delas.
E Sônia continuou, com a mesma precisão de distribuição de espaço: “testemunha destes longos anos de lutas.” Aí é o seu ideário que se revela. Quando a Sônia fala de lutas, com certeza não fala pra reclamar. É como na Canção do Tamoio, do Gonçalves Dias: “a vida é luta renhida, viver é lutar”.
Não sei se alguma vez, algum dia você viveu sem lutar, Sônia. Sejam as lutas doloridas, sejam as prazerosas – lutar contra os matos, no sítio, que querem invadir o espaço das outras plantas levadas para aquela terra, como sementes ou como mudas.
Porque você é uma pessoa que inventa lutas. Ontem, pensando em você, fiquei tentando te caracterizar, procurando palavras que pudessem traduzir você para uma pessoa que não te conhece. E cheguei à conclusão de que você é o inesperado habitual. É este paradoxo. Acontecem coisas surpreendentes com você, o tempo todo – mas elas se encaixam tanto no seu destino que se tornam coerentes com o seu cotidiano. Como se elas já fossem esperadas.
Você é uma eterna surpresa que se manifesta, com calma, numa amizade que a solidez do seu caráter e afeto permitem tecer. E o mais lindo de tudo é que ela, a amizade, é tão ampla. É um número enorme de pessoas que te ama, realmente, e a quem você já fez tanto bem. Acredito que seja isto o que te define: uma pessoa que vive com o misterioso da vida sem mistérios e com uma grande capacidade de ser amiga, útil e solidária. Como se diz na contra-capa de seu livro, você é uma unanimidade de afeto que contraria a opinião do Nelson Rodrigues de que toda unanimidade é burra.
E a Adélia soube captar tão bem a sua história e a sua essência que já dei para diversas pessoas este livro. Agora vou entregar alguns exemplares para meus filhos: eles precisam saber mais de um lado rico da minha alma, o pedaço onde você mora.
Parabéns a vocês duas por esta obra tão bacana e tão útil para quem faz e não faz teatro.

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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