Sábados PerVersos – a poesia em questão

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A poesia que sempre pautou em larga escala as atividades desta casa de cultura, foi o ponto de partida para este 2015.
Sábado, 31 de janeiro, uma manhã bonita de sol. Na távola, nem tão redonda, poesia. O Encontro, que a partir de agora, passa a acontecer todo o último sábado do mês, já tem nome: Sábados PerVersos – a poesia em questão.
Não teremos um coordenador fixo, mas a cada mês haverá revezamento da coordenação. Vem quem quer, sem nenhuma exigência prévia.
Desta feita, inaugurando o processo, a coordenação esteve a cargo da professoa e poeta Deise Assumpção que demonstrou ter feito uma escolha feliz. Levou ao grupo dois poemas para serem lidos, discutidos, analisados. Um de Adélia Prado, poeta largamente conhecida “que faz do cotidiano liturgia, não no sentido de religião, liturgia do sagrado e do próprio cotidiano ressignificado”) e outro de Tarso de Melo (“poema completo, onde nada é gratuito a dialogar com Gelman e o universo”), poeta que acaba de publicar sua obra reunida no volume Poemas 1995-2015, pela Dobra Editorial.
Poetas de gerações diferentes e dicções idem, mas que, por fim, puderam, ainda que para descrença ou desespero de alguns, se encontrar nas dobras e esquinas da poesia posto que falam da “impossibilidade de nomear o inominável” ou “dizer o que escapa”. Nada mais apropriado para um início de um processo de leitura e discussão crítica de poesia, iniciar com dois poemas metalinguísticos. Deu certo. E, como sempre, constatar que essas sendas são insondáveis e infindas.

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Abaixo, publicamos os poemas lidos e discutidos, com uma provocação ao leitor virtual: que tal fazer sua leitura crítica e deixar aqui as suas impressões? Assim, transformamos os sábados em todos os dias e a poesia invade o cotidiano, sem hora aprazada. Aguardaremos (dtv)

Poéticas (1)

«Va a sus versos como quien va a su cueva» (Juan Gelman)

De onde caem as vozes que falam no poema,
cai também um pouco de silêncio. E vontade

de dar nome ao silêncio, ao que foge sob o que é dito,
ao que fica amarrado nas palavras que o sustentam

– o poema, enterrado na cova do poema, nomeado
e inominável. Para além das palavras, na carne –

cerne – do sentido, como uma dor. Ou sua fome.
Como o que vem à cabeça – rói a memória e parte.

Parte em parte. O que vai ao poema é pálida sombra
do que fica nos ossos. Gravado, em febre, incrustado.

O que é dito se faz das palavras que um – com os dias,
alguma paixão e suas armas – salva daí. E partilha

incontrolável, vento em redor de si mesmo, água entre
dedos, sonho e chama, “árbol sin hojas que da sombra”.

O que se há de dizer escapa: cruza o rio de palavras
e chega, cada vez mais seco, à outra margem.

[para o Reynaldo]

Tarso de Melo

(In Caderno Inquieto. Dobra Editorial, S. Paulo, 2012, p. 11)
Antes do nome

Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o ‘de’, o ‘aliás’,
o ‘o’, o ‘porém’ e o ‘que’, esta incompreensível
muleta que me apóia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infreqüentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.

Adélia Prado
(In Poesia Reunida. Siciliano, S. Paulo, 10a ed., 2001, p. 22 – livro Bagagem)

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(fotos: Luzia Maninha)

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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