Rubervam Du Nascimento e o prazer da língua e da poesia

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Rubervam Du Nascimento, poeta brasileiro que nasceu no maranhão, mas nem ele mais acredita, pois é no Piauí que vive e trabalha, mais propriamente na “distanteresina”, local de onde dispara seus projéteis poéticos para o Brasil e o mundo. Um dos últimos foi parar em Moçambique e, amarrado a ele, lá se foi o poeta, dizer seus versos e alheios. Fez o maior sucesso e “O prazer da língua” virou projeto que já percorreu alguns estados brasileiros. No mês passado, aportou em Santo André, mais precisamente naquela casa de cultura plantada há 23 anos na Eduardo Monteiro, por onde ele já passou algumas vezes, a primeira delas no já distante ano de 1993.

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Sempre performático, vai acendendo lanternas da poesia para iluminar mentes e caminhos, lá veio ele, desta feita acompanhado por dois excelentes músicos Ronaldo Nunes e Igor Seiji a pregar sua “profissão dos peixes”.

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Mas não só, Houve também manifesto poético, exibição de vídeo (“às vezes, criança”, fotos incríveis de Sérgio Carvalho e poemas de Rubervam, porque o poeta, advogado, atua como Auditor Fiscal do Trabalho e nessa função, viu coisas que fazem com as crianças deste Brasil, que até Deus duvida – e disso fez poesia, porque poesia também pode e deve ser denúncia). Por fim, mas não menos importante, a 5a. edição, de bolso, do seu livro de poemas “espólio” foi autografada, celebrando com cajuína e castanha de caju, produtos autênticos do seu lugar, a ponte há tanto tempo construída, Teresina-SantoAndré, cujas tábuas são os versos e a fraternidade.

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O registro fotográfico, como sempre, é de Luzia Maninha.

Deixo aqui, a quem interessar possa, a breve apresentação que fiz para o livro “espólio”, (Scortecci, 2008), agora na 5a. edição, de bolso.
Acompanho a trajetória poética de Rubervam Du Nascimento desde que ele mesmo se autodenominava poeta de um livro só: A Profissão dos Peixes, livro que foi transformado por seu autor num recital performático, denominado Corpo-a-corpo, levado com muito sucesso por todo o Brasil. Era sua intenção reeditá-lo a cada cinco anos, sempre em edições revistas e diminuídas, até a “impressão da Pedra/Peixe, em enormes cartazes”, moto-contínuo às avessas. Assim foi com a 2ª. Edição, em 1993 e… bem, o poeta resolveu mergulhar em outras águas, aumentar o estoque do oxigênio e de lá, da “Distanteresina”, enviar seus poemas em garrafas que foram sendo recolhidas em portos sem prévia destinação. Em 1997, uma dessas garrafas é recolhida por Leila Miccolis, da Editora Blocos, no porto do Rio de Janeiro, e leva o 1º lugar do 1º Concurso Blocos de Poesia: Marco Lusbel desde ao inferno, um livro, no mínimo, perturbador. Sem discuidar da linguagem, particularíssima, o poeta, na pele de Lusbel, vai exercendo seu papel sedutor de almas, enquanto, não sem uma fina ironia, vai apontando as feridas sociais. Bons anos depois, uma dessas garrafas é recolhida nos portos do Recife, e lá recebe mais um prêmio, o Prêmio Literário Cidade do Recife, em 2005. “Os Cavalos de Dom Ruffato”, o livro premiado e editado pela Prefeitura daquela capital, o poeta revira o seu baú de memórias recolhidas em suas andanças, mas também recolhas da memória ancestral, verdadeiro cavalo de tróia, carregado de surpresas, onde uma avó inca remete a mundos míticos, repletos de simbologias, mas também (novamente) de indignações sociais.
Muitas luas depois, o nosso poeta mergulha novamente em seus baús de inventos e recolhas, e envia mais uma de suas garrafas que aporta em Sampa (“como costurar vela dos barcos de aço / elas rasgaram sem pena asas do mar”) e abocanha mais um prêmio: VI Prêmio Literário Asabeça, 2007, cujo resultado é este espólio, volume para o qual não poderia haver título mais adequado. Trata-se de um comovente espólio de “inutilidades” que só um poeta em sua plenitude poderia transformar em verdadeira poesia. O universo da paisagem e dos personagens poderia ser classificado como o de uma verdadeira saga nordestina, mas que, pela sua extraordinária carga de humanidade, pode muito bem ser “colada” numa paisagem nórdica, americana ou de qualquer recanto do planeta, onde “toda escrita ficou rouca / de tanto exigir da língua / toda escrita ficou vazia / diante do sumiço da ira”. Sem deixar de exercer sua capacidade de indignação, Rubervam mergulhou fundo mesmo foi no ofício da palavra, da qual se serve para produzir esta poesia que veio para ficar, não à superfície, como garrafa enviada por um náufrago qualquer, mas por alguém que sabe que a garrafa e a palavra nela contida chegará ao porto almejado.
Dalila Teles Veras

About Dalila

Dalila Teles Veras, escritora, proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora
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