Album

One Response to Sábados PerVersos – A Poesia em Questão (especial diaD – dia Drummond)

  1. Dia D

    a Itabira do poeta
    resiste ao tempo
    o casarão de janelas azuis
    revela o dia
    entre a névoa a relembrança
    entre a prece e a hipocrisia
    tudo que poderia ter sido
    e que foi
    ao findar do inverno
    a passo lento
    berra o boi-tempo
    a lerdeza mineira
    o falso encantamento da tristeza
    o lirismo mórbido da burguesia
    a mulher de sombrinha preta
    de vestido longo
    com ares de princesa
    a “inglesia ” cortês
    a fumaça escura do trem-de-ferro
    rumo a Vitória
    pela graça do Espírito Santo
    pela bandeira a meio pau
    o minério que não há mais
    as minas que teriam havido
    suas guerras gerais
    suas brigas em família
    suas arengas
    seus avais
    suas falências
    suas abstinências dominicais
    o sacro-ofício da poesia
    a ingerência do padre
    a subserviência da plebe
    a imanência das almas
    a pedra no meio do calvário
    a Itabira do Poeta
    há anos resiste ao tempo
    efêmera travessia
    a avenida de tráfego ofegante
    o elefante de quatro asas
    a mitologia das letras
    o colégio das freiras
    as colegiais de pernas roliças
    o Pico do Cauê de corpo desfigurado
    a paisagem lavrada de Itabira
    migra para o Rio de Janeiro
    vive em um copo de louça
    sobre a mesa do poeta
    a moça de olhos de pássaro
    da pele da cor de doce de leite
    a poesia no pretérito perfeito
    a desordem gauche da paisagem
    das coisas absurdas
    obsoletas
    das flores roxas à beira da estrada
    o absoluto abismo de Mimas
    Itabira
    não é mais um retrato na parede
    é sede e cinismo
    surda obediência à tirania do tempo
    sua matéria-prima
    bruma de poeira e vento
    friagem na espinha
    vertigem no ventre
    de quem por onde Drummond
    se descaminha
    inseto raro
    cava escava escavaca
    sua sofre
    escorre sobre si
    em sete faces se desdobra
    leito sem rio
    verso onipresente
    voz sem rima
    vida sem graça
    urbe urgente
    liga de ferro e aço quebradiço
    véu de nuvens
    vidas transparente
    passo a passo vaga no vazio
    a permanente ausência

    joão evangelista rodrigues
    11 – 26 56 75 0 4
    11 9 77 80 17 39 (Tim
    jevare@uai.com.br

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>