
Máquina de escrever – Hélio Neri
Lançamento do livro Máquina de escrever e
Conversa de livraria com o poeta Hélio Neri
Hélio Neri nasceu em Santo André — SP, em 1973, é poeta, barbeiro/ cabeleireiro. Tem poemas publicados em diversas revistas e jornais do Brasil e exterior. Possui seis livros publicados, entre eles, Sessões diárias e outros poemas, Editora Fractal, 2018 e Vida Útil, Corsário Satã, 2021. Faz parte do Coletivo Sarau na Quebrada, desde 2011. Edita, com Tatiana Fernandes, o selo Ave de Rapina.
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“Eis uma poesia ampla, política, social e que também desenha o corpo do poeta como uma existência metalinguística. Neste Máquina de escrever os versos trazem uma identidade afetiva do eu-lírico imerso no mundo, a partir do mundo, em que o amor dita as necessidades com os olhos atentos para o outro. É a percepção de si mesmo e a atenção na alteridade que centram os temas que comparecem nesta coletânea de poemas. Com domínio de ritmo, voz própria e uma poesia que de solitária passa a solidária, que Máquina de escrever se soma ao grande acervo coletivo da poesia contemporânea brasileira, dando lugar à denúncia social e a necessidade premente de reconduzirmos nossos afetos.”
Adriane Garcia, Poeta
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“O núcleo central da obra é constituído de um conjunto de textos que dá nome ao próprio livro: “máquina de escrever“. Composto de uma série sucessiva de digressões poéticas sobre o fazer poético, o pensentimento que anima esse núcleo transita entre o “fantasma da máquina”, o poema “como ser vivo” e a percepção de impotência da poesia diante das guerras, da fome e da desumanidade que nos cercam.
Percebemos então que, mais do que a máquina, é o tempo presente e suas impossibilidades que constitui o tema do livro. Numa época de “estrutura em abalo”, em que acreditamos “que não temos mais tempo pra nada”, “cadê a poesia?”, “Se não agora quando”, o autor se pergunta “se ainda há tempo / para mais um poema”. Nesse núcleo principal do livro, a presença pregnante da realidade invade a reflexão sobre o papel da poesia: “enquanto corto cabelo / penso um poema // na quebrada / meninos brincam / outros // são alvejados / à bala“. Num certo momento, o poeta associa uma cirurgia pela qual passou de implante de um marca-passo (um coração-máquina) “à mesma sensação / de quando / se faz poema’. A máquina de viver e a de fazer poesia vivem a mesma precariedade. Essa precariedade dilacera todo esse conjunto “máquina de escrever“: “uma vez: / também quis atear fogo / em meus versos / também odiei escrever / o que escrevi / talvez não fosse poema”. Depois, leva mais adiante seu autoquestionamento; “quanto há no poema da minha voz legítima?”.
Julio Mendonça